Resenha de Show: Metal Maniacs – 22 e 23/06/2019, Havana 1884 – Fortaleza/CE

Metal Maniacs – 22 e 23 de junho de 2019

Havana 1884 – Fortaleza/CE

Por Leonardo M. Brauna / Fotos: Chris Machado

O sábado (22) e domingo (23) de junho, em Fortaleza/CE, foram embalados pelo ‘Metal Maniacs’ com muito heavy metal e homenagens a André Matos que faleceu dias antes do evento. Bandas veteranas e novos nomes da cena local e uma da Paraíba garantiram boa festa ao público presente.

Dia 22/06, sábado

O primeiro dia do ‘Metal Maniacs’ começou ao peso e breackdowns do Burden. O quarteto que iniciou sua carreira em 2017 canta em português e pôs expressão no palco. O vocalista ressaltou a importância das pessoas participarem de eventos como este e falou também sobre a união entre rockeiros como forma de alimentar a cena. Letras com críticas e uma cozinha que chama atenção pelo groove são pontos altos na música do Burden, porém, riffs do metalcore e solos bem melódicos, como em ‘Brasil’ e ‘A Corda Bamba’, somam na identidade do grupo que esquentou bem os PAs.

A segunda banda também é nova na cena, praticamente formada em 2019, mas seus membros são músicos experientes que já tocaram até fora do país, sim, falamos da Omminous que acaba de concluir as gravações do primeiro álbum ‘Immensity’. A energia lançada à plateia é muito grande, o domínio de palco acumulado em anos de convivência reforça o amadurecimento e a alegria dos membros, como Lenine Matos (vocal) e Yago Sampaio (guitarra) que, além de serem bons no que fazem, chamam a atenção do público com suas performances, porém, um dos melhores momentos do set aconteceu em ‘Black Sun’, com o baixista George Rolim mostrando excelência na execução das notas. Lá atrás, o baterista Diego Vidal dividia funções entre bateria e samples, mostrando ser um profissional versátil. As pessoas do evento foram presenteadas com um show à parte, quando Lenine convida ao palco o vocalista da Hellhoundz, Jão Júnior, para um dueto em ‘Carry On’ do Angra, em homenagem a André Matos que reconhecidamente foi influência para ambos os cantores. Sem sombra de dúvida, pelo carinho com os fãs, respeito ao tempo e “soberba” da técnica, a Omminous fez um dos melhores shows deste primeiro dia de festival.

Da banda mais empolgada da noite para a mais destruidora, Betrayal sobe ao palco com o vocalista Wolney Mendes chamando todos à sua frente para receberem o peso de ‘Over Thrash’ e mais cacetadas que fazem desta uma das bandas mais respeitadas de Fortaleza. O clima selvagem gerado por riffs velozes, pancadaria e palavras de apoio ao underground, tomou forma. O palco com um pouco mais de um metro de altura não foi obstáculo para Wolney pular e puxar o circle pit depois que o guitarrista Franzé Mendes arrumou uma corda quebrada em um solo. ‘Destroying in the Mosh Pit’ foi mais um hino da banda conhecido pelos cearenses que a banda tocou e, entre outras canções próprias, como ‘Human Destruction’, ‘1964’ e ‘Thrash Aggression’, o quarteto ainda “lapiou” nos PAs ‘War Essemble’ do Slayer. O final triunfante se deu com um stage dive de Wolney.

Quem não descansou foi o baterista Sula Cavalcante que descia o braço nos compassos rápidos da Betrayal. Sem precisar mudar o kit, o músico agora ocupa o seu lugar na cozinha da Oráculo, banda que já é referência no Ceará completada por Robson Alves (vocal), Paulo Henrique (guitarra), Vicente Wilson (baixo) e o novo guitarrista Renan Ferreira. Já para lançar o terceiro registro ‘Disciples of Metal’ os veteranos do power metal cearense não perdem o fôlego em músicas como ‘Oráculo’ e ‘Lord of the Seas’, que são hinos do metal nordestino e ‘Pandora’, que é sempre oferecida às mulheres que contemplam a banda. Canções do vindouro álbum também foram executadas como ‘Strange Redemption’, que fez sequência à intro ‘The Beginning’ de ‘Wisdom’ (2005) e ‘The Thoughts of The Kings’. A presença de palco do grupo é sempre um espetáculo, mesmo não estando em cima dele como faz Vicente que, habitualmente, arruma um jeito de tocar junto à galera. O primeiro show com Renan não foi decepcionante, assim como a banda nunca decepcionou nesses quase 25 anos de carreira. O grupo encerrou com ‘Centaurus War’, mais um clássico de ‘Wisdom’.

Finalmente Sula pôde sair da bateria para ceder lugar ao seu colega da Oráculo, Paulo, que dá um tempo na guitarra para assumir a cozinha da Fist Banger. Este é um show muito especial pelo retorno da banda com Vinny Fist nos vocais e baixo (como nos velhos tempos e, mais recentemente, no evento ‘Garage Sounds’) e uma surpresa, Daniel Biff da Warbiff na guitarra. A expectativa em ouvir Vinny cantar com seus drives agudos é evidente, pois todos sabem que, paralelo à Fist Banger, o vocalista sustenta um projeto solo que usa uma técnica grave peculiar. Não deu outra! Realmente a voz de uma das bandas mais speed metal do Brasil não está mais 100% rasgada, mas está 100% harmonizada com outras técnicas que Vinny desenvolveu durante suas últimas experiências musicais. O que ficou legal também foi a guitarra de “Biffão” à música da Fist Banger, como em ‘Welcome to Hell (Feel the Pain)’ do EP ‘Invaders of the Thrash’ (2013). A própria canção título é tocada, além das ‘Merciless Death’ e ‘Fighting for Metal’. O set ainda cedeu lugar aos covers ‘Megamosh’ do S.D.I. e ‘Queen of Heresy’ do Cruel Force.

DIA 23/06, domingo

O segundo dia do ‘Metal Maniacs’ trouxe maior número de bandas porque uma delas que tocaria no sábado passou para o domingo – e foi com a banda remanejada Structure Violence que a segunda sessão do festival começou. O quarteto formado por Z.O. (vocal), Helder Jackson (guitarra, ex-Darkside), Jonhnny Marcel (bateria) e Diego Moreira (baixo) não economizou na fúria. Promovendo o seu EP autointitulado, a Structure Violence fez um show baseado em seu track list, o peso da cozinha e a força dos riffs em músicas como ‘Ever Alone’, ‘The Tower’, ‘Shephered’s Head’ e a própria canção título mostram que a banda formada em 2017 não brinca em serviço, nem desperdiça palavras, pois o pensamento politizado e contestador complementa a arte desses músicos. ‘The Dark Knights’ e ‘Hall of Doom’ estiveram presentes no set e podem fazer parte do primeiro full-length e uma das coisas mais legais que aconteceu neste show, foi encerrarem com ‘Turn Away’ do Shaman em homenagem a André Matos, provando que o recém-falecido cantor de Metal Melódico, influenciou também artistas de esferas mais extremas da música.

O segundo nome do domingo sobe ao palco com missão de não deixar o clima esfriar e para a Darkhaos este desafio é bem-vindo, pois a banda formada pelo baterista Kallil van Derick, Erickson Oliveira (guitarra) e Eriel Andrade (baixo) vem com um set especial com dois vocalistas, o recém-chegado Macedo “Darkness” e Renato Oliveira fazendo sua última apresentação. O show de despedida de Renato e de boas vindas de Macedo começou com ‘The Sands’, uma das músicas que fará parte do EP que está em pré-produção, em sequência veio ‘Shouting at your Grave’ e o primeiro dueto de vozes é feito pelos frontmans. A versão demo desta canção gravada apenas por Renato, que possui um timbre mais pomposo e ‘speed’, já foi liberada para audição no YouTube e plataformas digitais, e a versão oficial que sairá no CD com Macedo nos vocais, certamente receberá uma carga maior de agressividade pelo estilo selvagem na voz do “baixinho”. Esse contraste, além de arriscado caiu bem, mas as músicas cantadas sem dueto, como ‘Is hell here’ com grande performance de Macedo e ‘Execution’ com Renato conduzindo bem a melodia, ficaram matadoras.

A única banda de fora do Ceará deixou sua marca no ‘Metal Maniacs’ com uma formação não habitual, o guitarrista Cristiano Costa não pôde comparecer ao evento e o baixista Mad Ferreira substituía Madson Oliveira. Ao final da intro ‘Deadline’ a Flamenhell de João Pessoa/PB pôs à prova a resistência dos PAs. A vocalização de Tiago Monteiro é impressionante pelas partes mais rasgadas, e os riffs de Karl Neuman responderam a bronca com categoria. As baquetas trituradoras de Vitor Alves completaram a força do grupo. Se no álbum ‘Fire Away’ (2017) o “bicho pega” de jeito, ao vivo o espectador vê que não há truques de estúdio em execuções como ‘Systematic Chaos’ e ‘Die by my Hands’, canções que ganharam videoclipes oficiais. O repertório dos paraibanos ainda apresentou ‘Starfish Prime’, ‘Die by my Hands’, ‘FmW 35’ e ‘Blitzkrieg’ antes de coverizarem em ‘Territory’ do Sepultura e, mais à frente, terminar com ‘The Temple of War’ e ‘Avro Lancaster’. Definitivamente, um show para bater cabeça.

Se o Flamenhell fez tremer a estrutura de som do festival, a Criokar de fato gerou pane no equipamento, custando o estabilizador do baixo, afinal, sustentar os graves colossais de Ricardo Farias não é uma tarefa simples para muitas marcas de estabilizador, mas o técnico de apoio da produção não demorou em resolver o problema e, minutos depois, a banda completada por Cleiton Martins (vocal), Martins Andrade (bateria) e o estreante Alex Maramaldo (guitarra, 4BanneD, ex – Encéfalo) reiniciou a festa com a mesma intensidade que começou. O set list baseado no EP ‘Violência’ (2009) e no álbum ‘Agulhas Infectadas’ (2013), também enumerou a canção inédita ‘Marionetes’ que, assim como as já conhecidas ‘Covas para Inocentes’, ‘Quem São Vocês’ e ‘Testemunhos do Fim’, rendeu boa recepção. O show terminou sem mais imprevistos e ao som da música mais esperada, ‘Agulhas Infectadas’.

Já era noite no céu de Fortaleza quando a Heavy Smasher subiu ao palco do ‘Metal Maniacs’. Na bagagem, músicas de seu EP ‘Smasher and Loud’ (2018), novas composições e alguns covers na estreia do vocalista Nildo Gomes. Nando Smasher e Diego Quântico (guitarras), Luís Paulo (baixo) e Bruno Rocha (bateria) completam o time. O grupo fica bem à vontade em palco e é bom notar que suas referências são diversas, com um som que vai do Hard Rock Sleaze ao Metal tradicional – as influências dos membros vão mais além, pois sabe-se que Bruno é um amante de Doom Metal e Diego, ao que parece, é fã de Black Metal, pela camisa do Dimmu Borgir. As pegadas de ‘We are Angels’, ‘Heavy Smasher Sound’, ‘Clash of the Gods’, ‘Sunrise Rebel’, ‘In the Abyss’ e ‘Screaming All’ dão à banda ótima identidade e os covers de ‘War Pigs’ do Black Sabbath e ‘Dirty Deeds Done Dirty Cheap’ do AC/DC só estavam no set list para facilitar a vida de Nildo, que entrou dias antes sem ter chance de decorar todas as letras a tempo, mas o momento especial ficou por conta do próprio vocalista que empunhou uma guitarra para executar em timbre limpo ‘Living for the Night’ do Viper, em homenagem “a ele”, sim, André Matos.

Continuando a sessão Hard’n’Heavy do festival, mais uma veterana se apresenta e com nova formação. Sempre liderada pelo guitarrista e backing vocal André Rodger, a Fireline é completada por João Paulo (vocal), Milson Feitosa (baixo) e Gladson Rodrigues (bateria). Conhecida na cena local pelos ilustres nomes que estiveram em suas fileiras, como Alinne Madelon (The Knickers), Rômulo Shaw (Warbiff), Rildevar Silva (Lost Valley) e outros, a banda é referência no estado quando o assunto é riffs melódicos. Os caras são tão técnicos que, anos atrás, rolou um boato de que Timo Tolkki (ex – Stratovarius) em seu projeto Timo Tolkki’s Avalon teria plagiado a canção ‘Fireline’ de 2004 em sua música ‘Enshrined in my Memory’ de 2013. O boato chegou até os ouvidos do finlandês que, na época, deu declarações. E a música ‘Fireline’ foi tocada nesta noite, assim como a nova ‘Don’t Look Back’, que acaba de virar videoclipe oficial. Além dessas, ‘The Mirror of Truth’, ‘Crossing Lines’, ‘Give Life a Chance’, ‘Under Fire’ e ‘No surrender’ deram significado ao show da única banda de Hard Rock e AOR de Fortaleza. Show monstrão!

Os tios quarentões e cinquentões da casa puderam rever uma das bandas mais antigas de Fortaleza em ação, Leprous. Em 2019 a banda comemora trinta anos de gravação de ‘Welcome to Future’, mas o que se viu em cima do palco foi cinco caras maduros com espírito adolescente fazendo o que sabem desde 1987, tocar Thrash Metal e Hardcore. O guitarrista e fundador Ricardo Nobre é o mais empolgado e mostra serviço sem abusar da técnica. O outro guitarrista, Ricardo Silveira (ex-Outbreak) é meio introvertido, mas arregaça nos solos e passeia nos riffs. Outro músico da antiga, o baterista Gilvan Rabelo que gravou o clássico do Megahertz “Technodeath” (1989), dá aula de agressividade, mas depois de vários “dindins” (sacolé cearense) de vinho e vodka, Miguel Ângelo (vocalista) rasgou a goela com mais intensidade. Canções como ‘Massive Murder’ e a que dá nome à banda foram executadas com harmonia. “Muito legal estar aqui neste festival que lembra o álbum do Exciter, ‘Heavy Metal Maniac!”, parodia Miguel. ‘March Just Death’ foi mais uma do registro aniversariante, mas também teve ‘Brink of Madness’ e ‘My Internal Hell’ do EP homônimo de 2010. Durante a apresentação, Nobre informou que a Leprous trabalha em estúdio para a gravação de um novo CD. Os fãs novos e antigos agradecem! Encerraram com a dobradinha ‘Hate/Contract of War’.

Deixamos aqui nota de agradecimento ao Havana 1884, pela realização deste evento tão importante para o fortalecimento da cena local e à Pêa Muita Produções pelo credenciamento nestes dois dias de festival. Vida longa ao ‘Metal Maniacs’, ao Havana 1884 e a outros lugares como Praxedes Bar e Garagem Metal Bar que são a resistência do Rock/Metal autoral na capital cearense.