Krisiun – 18 de janeiro de 2020 – Fortaleza/CE

Pirata Bar – Fortaleza/CE

Por Leonardo M. Brauna

Estilos como death metal, black metal, thrash metal e hardcore são bem acolhidos nas noites da capital cearense, até mesmo por lugares inusitados como o Pirata Bar, que é um dos locais mais frequentados pelos turistas à procura de forró às segundas-feiras, porém, não é de hoje que a tradicional casa de show recebe a cena rockeira em seu interior. Aqui mesmo há 23 anos, os protagonistas da noite de hoje visitaram o estado pela primeira vez. Sim, Fortaleza é uma das capitais brasileiras que respira metal extremo e a confirmação disso está na história underground da própria cidade, onde mais atrás, em 1984, uma banda inspirada em nomes como Venom, Hellhammer e Slayer dava os primeiros passos ao que se tornou hoje o cenário do metal no Ceará.

E foi esta banda, Asmodeus, formada por Elineudo Morais (vocal, Flagelo), Fábio “Morceguinho” (guitarra e backing vocal, ex – S.O.H.), Acácio Vidal (bateria, ex – GS Ttruds) e o fundador Andreson Frota (baixo) quem ergueu os ânimos com o som old school de seu primeiro álbum ‘Parabellum’, lançado em 2018. Não seria habitual uma apresentação ruim deste quarteto, pois a experiência dos músicos fala por si. ‘Guerra’, ‘Sangue de Minhas Mãos’ e ‘PNCDBA’ foram as primeiras a serem tocadas. Com uma galera razoável se formando na pista enquanto a fila de bangers diminuía lá fora, a anfitriã local trouxe mais músicas empolgantes como as inéditas ‘Continuamos a Falar de Flores’ e ‘Como Lágrimas na Chuva’.

Um problema no equipamento de Fábio em ‘Tortura Metal’ acabou atrasando a execução completa da canção que está no ‘debut’, mas não o bastante para o sangue esfriar, foi até interessante ouvir o baixo de Andreson mandando peso por alguns segundos antes de se dar conta da falta do som da guitarra, notamos que os quase trinta anos sem tocar até o retorno da banda em 2015, não comprometeram a performance do baixista que, cinco anos após o retorno, mostra como se queima lenha com a avidez de um garoto.

A mensagem de cunho social conduzida por uma instrumental que beira o crossover é zona de conforto para Elineudo, que se movimenta bem e não poupa energia do “gogó”. Isso só mostra o acerto de Anderson ao convidá-lo a assumir o microfone da Asmodeus, assim como acertou também em chamar Acácio que transforma a cozinha em terremoto, mas sem perder a técnica. Time entrosado em palco e de qualidade que merece longa estabilidade.

Quando Alex Camargo (baixo e vocal), Moyses Kolesne (guitarra) e Max Kolesne (bateria) estiveram em Fortaleza pela primeira vez, em 1997, o Krisiun já era enorme Brasil afora pelo lançamento de ‘Black Force Domain’ (1995), hoje um dos álbuns que inspiram o brutal death metal. Desde então foram muitas idas e vindas ao Ceará, sempre com o mesmo carisma dos músicos e paixão do público. No instante de começar o espetáculo, um dos engenheiros aponta um problema no PA direito do palco e, até resolvê-lo, abriu brecha pra pegar aquela última cerveja antes da “destruição”, mas a demora não chegou a gerar inquietação, pois um show do Krisiun sempre compensa qualquer imprevisto com cacetadas como ‘Kings of Killing’ de ‘Apocalyptic Revelation’ (1998) no repertório. A paulada se estendeu à ‘Combustion Inferno’ de ‘Southern Storm’ (2008) e ‘Blood of Lions’ de ‘The Great Execution’ (2011).

É Inevitável a empolgação e quase obrigatória a formação de circle pits no evento, teve quem se arriscasse a se lançar no mosh com stage dives aproveitando uma bobeira aqui e ali do segurança. Alex dá o seu boa noite e fala da importância do headbanger cearense na vida do Krisiun, os anos se passaram, mas para a banda os momentos na terra de José de Alencar são vivos no coração do trio. A primeira do álbum mais recente é tocada com sua canção título ‘Scourge of the Enthroned’ (2018) que, logicamente, recebe a mesma recepção de alguns clássicos, como também a execução de ‘Slaying Steel’ que abre o CD de 2008. Mais uma de ‘The Great Execution’, ‘Descending Abomination’ e o trio “fuzila” a galera com mais uma do último álbum, ‘Demonic III’.

Retornando à sessão clássica, a introdução aniquiladora dos riffs de ‘Vengeance’s Revelation’ não faltou ao repertório, nem a metralhada de ‘Bloodcraft’ de ‘AssassiNation’ (2006). A brutalidade é a essência do show dos irmãos gaúchos, mas a simpatia também é uma característica, como a cordialidade de Alex ao parabenizar a mulher da cena metal, aqui representada pelas headbangers locais que estavam em bom número e participando do mosh. Camargo também não poupou críticas ao mau político e a quem deixa suas opções políticas comprometerem suas amizades, já Moyses foi bem mais ao ponto com a deixa: “Ei, Bolsonaro…”, e o público completa: “Vai tomar no cu!”, e foi assim por alguns instantes até retornarem ao repertório que ainda arregaçou com ‘Hatred Inherit’ do ótimo ‘Conquerors of Armageddon’ (2000) e ‘Slain Fate’ do álbum de 2004 ‘Bloodshed’.

A matança chega ao fim com ‘Conquerors of Armageddon’, ‘Ravager’ do mesmo álbum e ‘Black Force Domain’, que nem estava previsto no set list, mas depois de muito ser pedida, a banda atendeu. E assim o Krisiun cumpre mais uma missão em Fortaleza, deixando seu público satisfeito e com esperança de um breve retorno. Infelizmente não presenciamos pedradas de ‘Ageless Venomous’ (2001) e ‘Works of Carnage’ (2003), mas paciência, o show foi maravilhoso! Parabéns à Underground Produções por este presente ao headbanger cearense e ao Krisiun por renovar o seu exército de fãs por aqui.